Com 90% dos estudantes negros dentro de sua sala de aula, Vanessa Guimarães, professora da Escola Municipal Anísio Spínola Teixeira, localizada no bairro Corte Oito, afirma ter se cansado de ver como os livros escolares retratavam o conteúdo sobre os negros, e apesar da cor dos alunos, todos eles repetiam estereótipos e preconceitos sobre suas próprias identidades e cultura.
Formada em pedagogia, Dança Contemporânea e Direito, Vanessa está transformando, há 7 anos, o modo de ensinar da instituição. Para ela, entrar em uma escola pública, de forma geral, é um choque, e a sensação de impotência é grande.
—A estrutura física das escolas, em sua maioria, é bem precária. Onde dou aulas, por exemplo, não existe quadra para praticar esportes, sendo assim, os alunos não possuem aulas de educação física, mesmo essa sendo uma disciplina obrigatória por lei na grade curricular. Além disso, temos que lutar contra a falta de material escolar, apoio psicológico e médico dentro dos colégios públicos.
—Pensei que precisava de algo que materializasse uma representação positiva da raça negra e romper o limite da imagem do negro açoitado dos livros didáticos. Comecei a pesquisar e montar meu próprio material. Além disso, sentia que precisava contemplar o corpo. Não me parecia justo deixar os estudantes por horas sentados em fileiras, calados, imóveis.
Com a proposta de fazer com que os alunos se expressem, debatam e opinem mais, a pedagoga incluiu jogos e dinâmicas corporais, introduzindo, assim, danças africanas no contexto das aulas.
—Precisei romper com essa imagem de que os Orixás são demônios. Eles nada mais são que forças da natureza, são divindades que, independente da religião, merecem ser conhecidos pela riqueza cultural que representam.
Segundo a professora, um processo interdisciplinar foi o alicerce que utilizou para seguir com seu projeto.
—Juntei o ensino da história brasileira e formação sócio-cultural do Brasil, e a inteligência corporal dos alunos, que já dançam funk e jogam capoeira, com o desenvolvimento textual e oral.
Influenciada por Paulo Freire, a pedagoga afirma que, em um primeiro momento, suas propostas de ensino sofreram rejeição e diz que alguns episódios desagradáveis aconteceram.
—Teve uma mãe de aluna que não deixou a filha dançar Maracatu e uma avó que falou ser uma vergonha a escola permitir o ensino de “coisas do demônio”. Instruí os estudantes a explicarem em casa o que estavam aprendendo na escola. Aproveitei também os espaços de conexão com a comunidade, como festas juninas e reuniões para falar sobre o meu trabalho. Aos poucos a rejeição foi amenizando.
—Recebi xingamentos de “haters” em vídeos que eram publicados com danças africanas. Existe um preconceito muito grande com toda e qualquer manifestação negra. É triste, mas estamos enfrentando uma onda conservadora movida por falsos líderes religiosos e políticos que pregam o ódio e intolerância. A única saída é esclarecer, é resistir.
Mesmo com essa barreira inicial por parte da comunidade, a escola nunca se colocou contra o método de ensino, e atualmente, a maior apoiadora do projeto é a diretora Patrícia Blanco da Fonseca.
Para ela, a forma como Vanessa aplica o conhecimento é muito interessante, já que explora os alunos de forma global, e acaba desenvolvendo aspectos cognitivos, sócio-afetivos, psicomotores e culturais. De acordo com Patrícia, o projeto ajudou na concentração e fez com que os alunos se interessassem por diversos outros assuntos, além de ter melhorado as relações interpessoais dos estudantes.
—Antes do início do projeto, tudo era um pouco conturbado para os alunos,envolviam-se em muitas situações conflituosas. A dança os ajudou a se respeitarem mais, pois passaram a trabalhar em equipe. O clima mais harmonioso em sala, favoreceu o desenvolvimento no sentido pedagógico. Vanessa e eu nos unimos pelo mesmo sentimento e desejo, que era apresentar aos educadores novas alternativas, mostrar que podemos sonhar e lutar por nossos ideais, despertar habilidades adormecidas em nossos alunos e enriquecê-los culturalmente.
—Hoje a escola toda quer dançar. A saia de flores do Maracatu, os turbantes e as músicas viraram elementos de alegria e desejo dos alunos. Os alunos descobriram que podem ser o que quiserem e que possuem talento. Foi um salto na autoestima para cada um deles, e a mãe que havia proibido sua filha de dançar me procurou recentemente para pedir desculpas. Foi bonito ver essa mudança — completa.
Priscilla de Carvalho Nunes foi uma das mães que deram apoio ao projeto desde o início. Seu filho Kaio Netto, de 11 anos, mostrou mudanças significativas de comportamento dentro de casa e o rendimento na escola superou suas expectativas.
—Meu filho era muito tímido. Ele está muito mais aberto e feliz agora, e tem muito mais vontade de ir para o colégio. Quando vi meu filho dançando eu fiquei muito emocionada, nem acreditei.
O sucesso é tanto que algumas alunas já sabem o que querem fazer quando crescer. Para Rafaelly Bonfim, ser dançarina passou a ser seu sonho e ela já bateu o martelo.
—Já pensei e está definido. Vou lutar para ser dançarina e não vou desistir. A tia Vanessa é a minha inspiração e ela é muito carinhosa com a gente.
—Foi muito emocionante porque eu nunca fiz nada de dança. Quero continuar dançando para seguir feliz.
Em um futuro próximo, Vanessa pretende ampliar o grupo de dança da escola, e já em 2017 pretende tocar em outra ferida social, que, em suas palavras, precisa ser curada.
—A minha proposta de projeto pedagógico para o próximo ano tem como tema a questão de gênero. Vamos ver se meus colegas aceitam o desafio — finaliza.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe aqui o seu recadinho: